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Recordações da minha Infância

por JoseMota, em 14.09.11

Minha Mãe

Escolhi de propósito o mês de Março (2010)
Para homenagear a figura de minha mãe…
A “Amélinha das Eiras”,
Nome por que era mais conhecida na terra .
Foi em Março de 1939 que me deu à luz,
Já lá vão 72 anos…

Foi muito conhecida na freguesia e nas redondezas
Por ser detentora da arte de capar frangos
Em pequeno fui o ajudante dela…
Mas o destino quis que eu dela me apartasse

Quando fiz 12 anos, aproveitei uma oferta
Da Fidalga de Soutelo, que depois de me ver 
Com a quarta classe feita, se prontificava
A custear a continuação dos meus estudos
Se eu aceitasse ir para o seminário 
E depois me ordenasse padre.

Não tinha muitas alternativas naqueles tempos, 
Por isso, escolher entre ser padre 
Ou ajudar nas tarefas da lavoura…nao hesitei: 

Fui para o Seminário com doze anos e saí com 19.
Depois veio o serviço militar…
Em 1961 começavam as guerras do
Ultramar e lá fui eu para Angola
Sem que me permitissem ir à terra
Despedir-me da família…

Por lá fiquei cerca de 15 anos

Quando voltei em l976 
Abracei e beijei
Meu pai e minha mãe 
Como nunca tinha feito antes.
Ficamos os três para ali chorando
E quando olhei á minha volta…
Havia muito mais gente a chorar:
Meus irmãos e cunhadas…
Depois a minha imã Augusta.

Foi um dia pleno de alegrias
De lágrimas beijos e abraços
Como eu nunca imaginara antes.
… … … …

O tempo… foi decorrendo implacável
Meu pai… foi o primeiro a partir.

Minha mãe entrou numa espécie de letargia
E foi perdendo suas faculdades pouco a pouco…
Conta a Augusta, minha irmã que com ela esteve até ao fim
Que a Mãe só perguntava pelo José
Queria ver o José….e o José era eu…
Um dia fui ter com ela
(Eu vivia em Lisboa), 
Quando cheguei
Fiquei á porta olhando-a com
Carinho, esperando que me reconhecesse.

Foi então que a Augusta lhe disse:
“-Então mãe? Sabe quem é este senhor?
Ela disse que sabia… que eu era o senhor Doutor
(O médico que a costumava assistir)

Minha irmã explicou:
- Este é o José! 
- Anda sempre a perguntar por ele!
- E ele aqui está!.

Ela então respondeu:

“- Esse não pode ser o José! 
- O José é pequenino
- E esse senhor é grande!...”

O tempo e a memória dela
Tinham parado no menino
Que ajudava a capar frangos…



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publicado às 12:25


Lar, Será Castigo?

por JoseMota, em 11.09.11
 


 

Logo de manhã, por volta das oito horas, começam a chegar os companheiros para um Passeio Almoço Convívio e Lanche... Os destinos são diversos, as companhias variadas. As pessoas ocupam os seus lugares previamente marcados e pagos. 


Cumprimentam-se os conhecidos, são dadas as “boas-vindas” aos iniciados. Fica então pronto o autocarro para o início de mais um passeio de Domingo.

Ao microfone ouve-se a guia ou o motorista saudar os passageiros e anunciar o local da paragem para o pequeno-almoço. A hora depende, da fluidez do trânsito. 
Se rumamos a Norte, a paragem é em Aveiras. 

Normalmente escolhem o restaurante que mais garantias dá em espaço sanitário, para prover às necessidades mais comuns de quem anda em viagem. Por vezes, são tantos os autocarros, em Aveiras que se torna muito difícil em 30 minutos, conseguir tomar uma “bica” e resistir... na fila do WC. 

As mulheres estão sempre em maioria... por isso, depois que os homens se despacham, as casas de banho deles são invadidas por elas que nunca se cansam de gabar a higiene que encontram no WC masculino, em contraste com o “chiqueiro” que dizem ser o feminino. 

Aliviadas as pessoas e reconfortados os estômagos, voltam a ocupar os seus lugares, havendo nova contagem e conferência, não vá alguém ficar em terra, ou embarcado em autocarro alheio. 


A entrada no restaurante, é sempre por volta das 13 horas, por isso se a distância a percorrer for pequena, temos direito a paragens em locais onde se podem comprar os mais variados produtos.

Nas Caldas da Rainha há fruta, doçaria e artesanato.

Nas Salinas de Rio Maior, há quem se abasteça de “sal-gema” até à próxima visita.

Na Malveira há “trouxas".

Em Torres Vedras pastéis de feijão.

Há pão-de-ló no Alfeizerão e bons “pecebes” na Nazaré.

 

À entrada no restaurante, são servidos os aperitivos habituais.

Depois cada um se dirige para a respectiva mesa, onde os aguardam mais umas “entradas”

(chouriço assado em rodelinhas, tapas de queijo, rolinhos de fiambre. pedacinhos bacon, pão azeitonas, croquetes...pasteis de bacalhau, e em certas localidades: orelheira de porco moelas e “pipis)

 
No mesmo grupo costumam encontrar-se as mais variadas tipologias de turistas de Domingo.

Há os que vão para encher bem a barriga:

Pegam na lista que a Agência anexa ao bilhete e conferem para ver se vem tudo para a mesa. 


Em maioria estão sempre as viúvas: Há as conformadas e as inconformadas.

 
As primeiras já perderam todas as ilusões e limitam-se a “viajar por viajar”, pouco se importando com a “linha”, comem de tudo, aproveitam bem os vinhos e repetem as sobremesas. O Baile não conta.

 
As inconformadas, preocupam-se com a “linha”, comem moderadamente e estão sempre disponíveis para dar um ”pezinho de dança”, desde que o pretendente reúna as condições, que em seu entender valha a pena aproveitar.

Foi com espanto que vi duas senhoras recusar sucessivamente dois convites para dançar, desculpando-se com a mesma frase:

“...Desculpe, mas não danço porque o meu marido está lá em baixo!

 
”Na verdade havia outra festa no piso inferior, mas nunca as tinha visto acompanhadas, nem lhes conhecera os maridos...

Quando fui ao WC um dos “rejeitados” dirigiu-se a mim com a maior correcção e perguntou se era verdade elas terem os maridos lá em baixo. 
Respondi que não sabia, mas ia tentar saber. Foi então que me disseram que “não iam com a cara deles”, e que os maridos estavam em baixo, no Cemitério....eram ambas viúvas há mais de 15 anos...


Quando nos sentamos á roda de uma mesa de dez pessoas, há sempre alguém mais comunicativo que conta a sua vida, descreve as habilidades de um netinho, as diabruras de um cachorro e as “ ronrronices” de um gato.


Há as que vivem sós e são usadas pelos filhos que lhes entregam os netinhos, explorando-lhes a paciência e experiência em proveito próprio.

Quando têm uma folga, vão às Agências e marcam um passeio de autocarro, para quebrar a monotonia, descansar o cérebro...aliviar os braços.

Já vi uma senhora, Avó assumida, que trazia num braço as marcas dos dentes de um neto que descarregava nela as birras que os papás não se dispunham a aturar, e ai dela que não deixasse o menino morder:

 
SERIA ENVIADA PARA UM LAR DE IDOSOS, por Castigo.



Há retalhos de vidas que o destino esfarrapou e relatos de sentenças judiciais que fabricaram divorciadas.

 
O eterno desprezo com que os filhos lhes pagam

as noites mal dormidas na meninice,

a protecção na adolescência,

um bom emprego num banco

ou o seu ingresso numa empresa de prestígio,

são as lamentações mais comuns. 


Mas também há quem afirme o contrário e dê graças pelos filhos que Deus lhe deu. 

PoetaSenior


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publicado às 11:06


O Relógio dos Lavradores

por JoseMota, em 31.07.11

Fui nascido e criado numa freguesia que a linha do comboio do Douro dividia ...Não me lembro da sua construção, mas minha avó falava muitas vezes no "Caminho do Inferno", em vez de dizer "Caminho de Ferro".
Para as mentalidades do povo da aldeia nos finais do século dezanove, a chegada do comboio era o prenúncio de muitas desgraças: os operários não apareciam na Missa de Domingo, mas trabalhavam de sol a sol sem respeito pelos dias santos ou Domingos...
As locomotivas cuspiam fagulhas que o vento espalhava por toda a parte e minha avó, quando à noite se ouvia o apito estridente do comboio que se aproximava, levava-me até à janela para eu ver o fogo, escutar o ruído, cheirar o fumo negro e dizia:
- Vês? aquilo é obra do diabo...o inferno passa por aqui...Se não rezares muito nem fores à igreja, um dia o demónio leva-te para aquele fogo
E eu uma criança de três ou quatro anos ia para a cama assustado... Sonhava com os comboios que adorava ver exalar tanto vapor branquinho, fagulhas cintilantes e assustar as ovelhas e galinhas que eram criadas de um e de outro lado da linha...Nunca sonhei com o inferno nem com as retaliações que aquela avó tanto apregoava...

Depois fui crescendo e aprendendo que a vida campestre se regulava pela passagem dos comboios...Pelas seis horas da manhã saía do Marco o "Recoveiro" que parava em todas as estações e apeadeiros...era o mais barato e ditava a hora de sair da cama de todo o pessoal da aldeia....
-Vamos à vida!!! o "Recoveiro" já lá vai... - Era o que os lavradores diziam aos moços da lavoura que saiam da cama com olhares turvos e caminhar cambaleante da sonolência que pedia mais cama...
Depois cerca das dez horas vinha o "comboio correio" procedente do Porto e era tempo de se "comer o caldo" na malga que continha couves, feijão, batata... e era "adubado" com "pingo" de porco ou um fio de azeite.
O pingo era a gordura da carne de porco onde os rojões tinham sido cozinhados uns dias depois da "matança" do bicho...com o frio transformava-se em banha!

A hora do meio dia era determinada pelo cruzamento de duas composições: uma que vinha do Marco e seguia para o Porto e outra que vinha do Porto e seguia para a Régua.

Pelas três da tarde era a hora da "merenda"...quando passava o "comboio canário" onde vinham as caixas do peixe com sardinhas, carapaus e chicharros...Nesta altura a "Micas Sardinheira" vinha da estação da Livração com a sua canastra repleta de peixe que 
ia apregoando pela freguesia de porta em porta...





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publicado às 10:57


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